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X-Men Annual #10 | Meio & Mensagem

Sou publicitário e, ao longo da minha carreira, já li muitas edições da revista Meio & Mensagem. Sempre fui fascinado pelo nome da revista, que é inspirado na famosa frase “o meio é a mensagem”, do filósofo Marshall McLuhan. Aprendi ao longo dos anos de profissão a enxergar os veículos de comunicação não apenas como […]

Sou publicitário e, ao longo da minha carreira, já li muitas edições da revista Meio & Mensagem. Sempre fui fascinado pelo nome da revista, que é inspirado na famosa frase “o meio é a mensagem”, do filósofo Marshall McLuhan. Aprendi ao longo dos anos de profissão a enxergar os veículos de comunicação não apenas como canais de conteúdo, mas como forças que moldam percepção, comportamento e identidade.

 

 

Já faz algum tempo que me dei à tarefa longa e prazerosa de ler toda a fase escrita por Chris Claremont nos X-Men. No meio desse caminho, acabei lendo a revista X-Men Annual #10, publicada em 1987, onde o vilão Mojo parece encarnar, de forma grotesca e irônica, a teoria do livro “Understanding Media: The Extensions of Man”, de Marshall McLuhan.

 

Capa do livro Understanding Media: The Extensions of Man publicado nos EUA pela editora Signet.

 

Na edição anual, os X-Men estão enfrentando Magneto em um treino na Sala de Perigo, enquanto são observados, sem perceber, por Mojo, o tirano de Mojoworld. Diferente de qualquer antagonista convencional, Mojo não busca poder ou destruição pelo simples desejo de dominar. Seu objetivo é criar espetáculo, e em seu mundo, o meio absoluto para o espetáculo é a televisão.

 

 

Buscando o entretenimento de sua audiência, ele transforma os X-Men em versões infantis de si mesmos, os X-Babies (uma galhofa sem tamanho) manipulando sua aparência, suas memórias e suas habilidades. Não se trata apenas de sequestrar heróis; trata-se de controlar a percepção que eles têm de si mesmos e de transformar suas identidades em entretenimento. O conteúdo do programa é irrelevante, porque o próprio meio, a experiência televisiva, já exerce o controle mais profundo.

Mojo funciona, nesse sentido, como uma metáfora para a crítica de McLuhan sobre o poder dos meios de comunicação. A mídia, assim como Mojo, não apenas transmite mensagens, ela molda comportamentos, cria dependências emocionais e define padrões de identidade e percepção. Em Mojoworld, os X-Men não podem simplesmente reagir ou resistir com força física; sua essência está sendo reescrita pelo próprio meio. Como publicitário, não posso deixar de ver nesse processo uma crítica quase literal à forma como campanhas, plataformas e canais moldam o público, muitas vezes sem que este perceba.

 

Página da edição desenhada por Arthur Adams.

 

A batalha não é apenas física. Os X-Men, com a ajuda de Longshot, enfrentam uma luta de sobrevivência de identidade, romper o controle do espetáculo e recuperar suas memórias e habilidades. Longshot surge como um agente capaz de inverter os efeitos do meio e devolver aos heróis sua autonomia. É uma batalha que ressoa além dos quadrinhos; é um alerta sobre a vigilância, a manipulação e o poder das plataformas que definem o que vemos, como vemos e como nos percebemos.

Essa edição anual não é apenas uma galhofa sem tamanho; é uma reflexão sobre os perigos do espetáculo e da manipulação midiática. Mojo, grotesco, exagerado e sedento por audiência, nos força a pensar até que ponto somos moldados pelos meios que consumimos? Qual é o efeito das telas, das redes e da própria cultura do entretenimento sobre nossas escolhas e identidades? McLuhan nos alertou décadas antes, muitas vezes não é a mensagem que nos transforma, mas o meio pelo qual ela chega até nós. Mojo é a materialização desse conceito, mostrando o poder absoluto do espetáculo quando o meio se torna dominante sobre o conteúdo e sobre a própria vida daqueles que nele estão inseridos.

Página da edição desenhada por Arthur Adams.

 

Nos dias atuais, os meios de comunicação modernos assumem formas muito mais complexas e onipresentes do que as mídias tradicionais que McLuhan estudou. As redes sociais e os algoritmos de recomendação atuam como Mojos contemporâneos, invisíveis, aparentemente neutros, mas profundamente moldadores de percepção e comportamento. Cada feed, cada notificação e cada “like” age como uma pequena intervenção, definindo o que vemos, como reagimos e até como pensamos sobre nós mesmos. A experiência do usuário já não é apenas passiva, é moldada ativamente pelo próprio meio, que seleciona, amplifica e organiza conteúdos para gerar atenção e engajamento.

Assim como os X-Babies foram criados para o espetáculo televisivo de Mojo, hoje milhões de usuários são, sem perceber, participantes de um grande espetáculo digital. Os algoritmos decidem quais conteúdos receberemos, quais narrativas serão reforçadas e quais pontos de vista permanecerão invisíveis. A mensagem individual, por mais relevante que seja, perde importância diante do poder do meio de moldar a realidade percebida. Em termos McLuhanianos, o efeito do meio é maior do que o conteúdo que ele transmite, e muitas vezes invisível para quem consome.

Página da edição desenhada por Arthur Adams.

 

Esse controle moderno da percepção não se limita à esfera do entretenimento. Ele influencia política, consumo, relações sociais e até mesmo a construção da identidade. A vigilância constante e a economia da atenção lembram o universo de Mojo; somos observados, categorizados e direcionados sem percebermos o quanto isso molda nossas escolhas. A consciência crítica e a reflexão tornam-se, portanto, ferramentas essenciais para recuperar autonomia em meio a esse espetáculo contínuo.

Tanto na publicidade quanto nesta edição dos mutantes, notamos que o controle da percepção é mais poderoso do que qualquer força física ou argumento racional. Assim como os X-Men precisam recuperar sua identidade e agência frente a Mojo, nós consumidores devemos permanecer conscientes do poder dos meios que nos cercam. A filosofía de McLuhan, a ironía de Mojo e a narrativa dos X-Babies nos lembram de que o espetáculo pode ser fascinante, mas também perigoso, e que nossa liberdade depende da consciência de como cada meio molda não apenas a mensagem, mas a própria experiência de ser e existir.

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