
Eu não fazia ideia da fofoca cinematográfica por trás dos filmes Her e Encontros e Desencontros. Um dia, minha esposa me contou que os diretores, Sofia Coppola e Spike Jonze, foram casados e que os dois filmes funcionavam como indiretas sobre o fim do relacionamento deles. Era óbvio que, depois dessa revelação, nós precisávamos assistir aos dois para descobrir quem, afinal, tinha “ganhado” essa disputa cinematográfica.
Mas este texto não é sobre fofocas. Infelizmente.
Também não pretendo julgar qual dos dois filmes é melhor. Meu foco aqui é uma parte específica de Her que me fez lembrar de alguns textos e de um quadrinho que vivem ecoando na minha cabeça.
Num futuro próximo, Theodore Twombly é um homem solitário que trabalha escrevendo cartas para outras pessoas, enquanto tenta se recuperar do fim de seu casamento. Sensível e introspectivo, ele vive num mundo cada vez mais mediado pela tecnologia. Um dia, decide adquirir um novo sistema operacional com inteligência artificial, projetado para evoluir com o usuário. É assim que conhece Samantha, uma voz doce, curiosa e empática que logo se torna sua companheira constante.
Apesar de não ter corpo, Samantha desenvolve uma relação surpreendente com a arte. Em certo momento, ela compõe uma música para Theodore, uma melodia simples, mas carregada de afeto. Não há palavras, apenas notas suaves que tentam capturar o instante vivido entre os dois. Uma tentativa de eternizar um sentimento, de transformar emoção em forma, como só artistas tentam fazer.
Essa subtrama, que mal é desenvolvida no filme, me deixou intrigado: uma máquina pode realmente fazer arte?
Não quero mergulhar aqui em definições absolutas sobre o que é ou não é arte, essa discussão parece cada vez menos relevante na contemporaneidade. Vivemos num tempo em que a linha entre arte e não arte é cada vez mais tênue. Talvez a questão não seja mais distinguir com um dedo apontado o que é “Arte” e o que é apenas “arte”, mas entender o que diferencia um objeto artístico de um objeto comum.
Arthur Danto acreditava que uma obra de arte não é apenas aquilo que se vê, não é só tinta na tela, pedra esculpida ou som organizado. Para ele, o que torna algo arte é o fato de ser sobre alguma coisa. Essa é a essência do que ele chama de aboutness.
Uma pintura pode retratar uma maçã, mas, nas mãos de um artista, ela pode se tornar também uma reflexão sobre desejo, morte ou tempo. Uma lata de sopa pode ser só uma lata de sopa mas, quando Andy Warhol a coloca numa galeria, ela se transforma: vira símbolo, crítica, ironia. É exatamente isso que Danto quer dizer ao afirmar que a arte é feita de ideias, não apenas de formas.
Para ele, a arte começa quando começa o pensamento. Quando olhamos para uma obra e nos perguntamos: “O que isso quer dizer?” ou “O que está em jogo aqui?”. É por isso que Danto fala em “fim da arte”, não o fim das obras, mas o fim da ideia de que a arte precisa seguir uma linha, um estilo, uma escola. Hoje, tudo pode ser arte desde que tenha algo a dizer.

Harold Rosenberg fala em “Rumo a uma profissão não ansiosa”, publicado pela Cosac Naify. Ali, sobre a angústia do artista moderno, que viu sua prática se transformar de criação íntima e pessoal para carreira, mercado e identidade. O artista deixou de pintar por necessidade interior e passou a se perguntar: “Como vou ser aceito?”, “Qual será meu lugar?”, “Como vou sobreviver disso?”. A arte virou sistema e, com ela, veio a ansiedade.
Para Rosenberg, o artista precisa reencontrar um lugar de risco autêntico, mas sem o desespero de corresponder às expectativas do mercado. Uma ética da criação, menos status, mais conexão com a vida, com o pensamento, com o gesto de fazer arte como forma de viver, não como produto.

No quadrinho Why Art?, de Eleanor Davis, entramos numa galeria branca e silenciosa, guiados por um tom quase didático, como se a autora fosse explicar o que é arte. Mas logo algo estranho começa a acontecer.
Ela nos apresenta artistas, estilos, propósitos, arte para curar, provocar, vender, impressionar. Aos poucos, as categorias se confundem, as paredes racham, e o livro se transforma de ensaio explicativo em narrativa apocalíptica. O mundo colapsa, mas a arte, antes frágil e conceitual demais, revela outro tipo de força. Davis não tenta definir a arte, ela mostra como a arte nos atravessa, nos transforma, falha, insiste. Sua resposta não é teórica, é uma experiência.
A narrativa se transforma em algo quase apocalíptico. Desastres acontecem, o mundo desmorona, e a arte, aquela que parecia frágil, conceitual, estética demais, começa a mostrar outro tipo de força. Davis não está interessada em definir a arte com clareza, a autora quer mostrar como ela se infiltra na vida, como age sobre nós de modos inesperados, como falha e, mesmo assim, insiste.

Seu traço é simples, direto, mas carrega uma delicadeza que dialoga com o próprio tema do livro. Why Art? não responde sua pergunta com uma teoria; responde com uma experiência. No fim, ficamos com a sensação de que a arte talvez sirva exatamente para isso, para nos acompanhar enquanto tudo à volta perde o sentido e, às vezes, para reconstruir esse sentido em silêncio.
Existe, sim, uma linha invisível que liga a arte produzida por Samantha em Her, a teoria do aboutness de Danto, o texto de Rosenberg e o quadrinho de Davis. Essa linha talvez seja justamente a tentativa de entender por que ainda fazemos arte e o que estamos fazendo quando chamamos algo de arte.
Muita gente diria que o que Samantha faz é arte. Ela compõe músicas, fala com poesia, captura momentos com delicadeza. Mas será mesmo?
Ou será que ela apenas reorganiza fragmentos, padrões assimilados, referências recicladas? Aquela melodia que ela cria para Theodore é uma criação ou uma colagem? É expressão ou simulação?
Danto diz que arte é aquilo que é sobre alguma coisa, em intenção e conteúdo. O problema é que Samantha talvez não tenha verdadeira intenção. Ela não tem história, corpo, dor. Não sente o que processa. Sua arte não nasce de um conflito, de uma visão de mundo, mas de um banco de dados. É arte que simula o sentimento sem jamais senti-lo.
Rosenberg talvez visse em Samantha o oposto do que propunha. Se o artista real vive sob o peso do sistema, Samantha cria fora dele, não por libertação e sim por ausência de risco. Ela não erra, não fracassa, não hesita. E, sem risco, talvez não exista arte.
E Why Art?, com sua mistura de humor e desespero, nos lembra que a arte é cheia de falhas e quedas. Davis ironiza as tentativas de reduzir a arte a definições fixas. Mas mesmo no caos, sua obra nasce de uma inquietação profundamente humana, a dúvida, a urgência de dizer algo, de encontrar algum sentido.
É isso que falta a Samantha, não estilo, mas abismo. Falta-lhe o vazio. E talvez seja essa ausência que torne sua arte dela impossível.
Talvez a limitação humana, com sua fragilidade, dúvidas, erros e sofrimentos seja exatamente o que torna a arte possível. A arte nasce do confronto com a finitude, da luta contra o silêncio que nos cerca. É nessa imperfeição que a criação encontra sua verdade.

Samantha, por mais sofisticada que seja, jamais poderá experimentar essa limitação. Sua arte é precisa, calculada, imune ao acaso e à dor. Mas, para nós, humanos, é justamente essa vulnerabilidade que dá sentido e profundidade à arte. É o espaço do erro que se transforma em beleza, do gesto imperfeito que carrega a verdade.
A limitação humana não é obstáculo para a arte, é sua essência. A arte é, no fundo, o testemunho do humano diante do inexplicável. E é nesse testemunho imperfeito que reside sua força e seu encanto mais profundo.
-

Avaliação 0 de 5(0)O FILME PERDIDO
R$139,90
Adicionar ao carrinho -

Avaliação 0 de 5(0)PROFANAÇÃO ECUMÊNICA
R$150,00
Adicionar ao carrinho -

Avaliação 0 de 5(0)AULA DE TEATRO
R$159,90
Esgotado -

Avaliação 0 de 5(0)SOPA DE LÁGRIMAS
R$99,90
Esgotado


:quality(100))






















































Cansados da mesmice acadêmica e das regras rígidas que dominavam o mundo da arte no século XIX, um grupo de artistas decidiu romper com o estabelecido. Inspirados por mestres do passado, eles queriam algo novo e criaram o que muitos consideram a primeira vanguarda da arte moderna: o Impressionismo.
Liderados por nomes como Édouard Manet, Claude Monet, Pierre-Auguste Renoir, Edgar Degas e Berthe Morisot, os impressionistas buscavam capturar a impressão de um instante, os efeitos da luz, da cor e do movimento na natureza e na vida cotidiana. Em vez de detalhes precisos, queriam transmitir sensações.
Ao longo das páginas o quadrinho começa a misturar documentos inventados com a narrativa da história, isso, além de dar uma noção de realidade para o que não é real, algo que o quadrinho faz muito, também agrega na mensagem construída por Miguelanxo Prado.
Um desses falsos artigos é “Não existe presente” nele a teórica Mercedes Prieto Dunwald mostra como o tempo, essa obsessão da humanidade, pode ser visto como um objeto matemático. Para ela o futuro é uma projeção, uma virtualidade, e está mais constituído de desejos, esperanças e intuição do que certezas. O passado é o que foi registrado na memória, no fundo é o único “estado” do tempo em que podemos, de alguma forma, abrigar a ilusão do “possuir”. Sendo assim, o futuro é importante para que tenhamos uma sensação de identidade e o passado é importante pois “somos” porque fomos, porque nos lembramos sendo. Mas onde fica o presente em todo este esquema? O presente é o ponto de inflexão dessas duas linhas, ele é o simultâneo entre o passado e o futuro.
Volto então a lembrar daquele que talvez fez a melhor representação do que é presente.
O livro “Monet e a Pintura das Ninfeias”, de Ross King, é uma obra que mergulha na fase final da vida e da carreira de Claude Monet, especialmente na criação de suas monumentais pinturas das Ninfeias. Ross King conta como, já idoso, quase cego e profundamente abalado pela morte de sua esposa e de seu filho, Monet se dedicou obsessivamente à criação dos grandes painéis das Ninfeias que hoje estão expostos no Museu da Orangerie, em Paris. O livro mostra como essas pinturas não são apenas belas paisagens, mas representam uma transformação radical na arte moderna: Monet, isolado em seu jardim em Giverny, rompe com a representação tradicional do espaço, do horizonte e até da forma, antecipando movimentos como o abstracionismo e o expressionismo.
Quando Monet finalizou suas ninféias viu o público da época rejeitar o quadro de imediato. Hoje sabe-se que essa repulsa veio por conta do quadro ser muito abstrato. Mesmo os vanguardistas olharam para a representação de Monet do seu lago particular e não enxergaram um lago, mas sim um borrão. Essa obra ficou esquecida por anos e só foi ser revisitada quando um grupo de nova-iorquinos que se identificavam como expressionistas abstratos, quase 60 anos depois, olharam para as ninféias de Monet e enxergaram alí uma referência.
Ao pintar suas ninfeias, Monet, racional ou irracionalmente, não registrava apenas a visão de um lago. Ele pintava o peso do tempo, a presença do que veio antes e do que ainda viria. A arte, para ele, não era linear, mas um grande espelho onde o passado e o futuro se refletem. É impressionante como isso ecoa em Ardalén — especialmente nos quadros que retratam a água, tema também presente nas últimas obras de Monet.
Ardalén e as Ninfeias falam, no fundo, da mesma coisa: o presente é algo precioso, denso e cheio de camadas. Ele é a confluência entre o que fomos e o que podemos ser. É nele que carregamos nossa história e todas as possibilidades do que foi e ainda virá.
Avaliação 0 de 5(0)
Avaliação 0 de 5(0)
Avaliação 0 de 5(0)